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quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Universidade e inserção social, por Frei Betto


Universidade e inserção social

20/2/2012 16:19,  Por Frei Betto
Porque dizemos universidade e não pluriversidade? Trata-se de uma instituição quecomporta diferentes disciplinas. Multicultural, nela coabita a diversidade desaberes. O título universidade simboliza a sinergia que deveria existir entreos diversos campos do saber.
Característicalamentável em nossas universidades, hoje, é a falta de sinergia. Carecem deprojeto pedagógico estratégico. Não se perguntam que categoria de profissionaisquerem formar, com que objetivos, de acordo com quais parâmetros éticos.
Ora,quando não se faz tal indagação é o sistema neoliberal, centrado no paradigmado mercado, que impõe a resposta. Não há neutralidade. Se o limbo foi, hápouco, abolido da doutrina católica, no campo dos saberes ele nunca teve lugar.
Umcristão acredita nos dogmas de sua Igreja. Mas é no mínimo ingênuo, senãoridículo, como assinala o filósofo Hilton Japiassu, um mestre ou pesquisadoracadêmico crer no propalado dogma da imaculada concepção da neutralidadecientífica.
Emque medida nossas instituições de ensino superior são verdadeiramenteuniversidades, ou seja, se regem por uma direção, um enfoque dialógico, umprojeto pedagógico estratégico? Ou se restringem a formar profissionaisqualificados destituídos de espírito crítico, voltados a anabolizar o sistemade apropriação privada de riquezas em detrimento de direitos coletivos eindiferente à exclusão social?
Auniversidade, como toda escola, é um laboratório político, embora muitos oignorem. E a política, como a religião, comporta um viés opressor e um viéslibertador. Como diria Fernando Sabino, são facas de dois legumes…
Umdos fatores de desalienação da universidade reside na extensão universitária.Ela é a ponte entre a universidade e a sociedade, a escola e a comunidade.
Asuniversidades nasceram à sombra dos mosteiros. Estes, outrora, eram erguidosdistantes das cidades, o que inspirou a ideia de campus, centro escolar que nãose mescla às inquietações cotidianas, onde alunos e professores, monges dosaber, vivem enclausurados numa espécie de céu epistemológico. Como assinalavaMarx, dali contemplam a realidade, tranquilos, agraciados pelas musas,encerrados na confortável câmara de uma erudição especializada que pouco ounada influi na vida social.
Essacrítica à universidade data do século 19, quando teve início a extensãouniversitária. Em 1867, a Universidade de Cambridge, Inglaterra, promoveu umciclo de conferências aberto ao público. Pela primeira vez, a academia abriasuas portas a quem não tinha matrícula, o que deu origem à criação deuniversidades populares.
AntonioGramsci estudou numa universidade popular na Itália. A experiência o fezdespertar para o conceito de universidade como aparelho hegemônico que serelaciona com a sociedade de modo legitimador ou questionador. Para ele, umainstituição crítica deveria, através dos mecanismos de extensão universitária,produzir conhecimentos acessíveis ao povo.
NaAmérica Latina, antes de Gramsci houve o pioneirismo da reforma da Universidadede Córdoba, em 1918. A classe média se mobilizou para que as universidadescontroladas pelos filhos dos latifundiários e pelo clero se abrissem a outrossegmentos sociais. Fez-se forte protesto contra o alheamento olímpico dauniversidade, sua imobilidade senil, seu desprezo pelas carências da comunidadeentorno.
Aproposta de abrir a universidade à sociedade alcançou sua maturidade, naAmérica Latina, no 1º Congresso das Universidades Latino-Americanas, reunido naUniversidade de San Carlos, na Guatemala, em 1949. O documento final rezava: “Auniversidade é uma instituição a serviço direto da comunidade, cuja existênciase justifica enquanto desempenha uma ação contínua de caráter social, educativoe cultural, aliando-se a todas as forças vivas da nação para analisar seusproblemas, ajudar a solucioná-los e orientar adequadamente as forças coletivas.A universidade não pode permanecer alheia à vida cívica dos povos, pois tem amissão fundamental de formar gerações criadoras, plenas de energia e fé,consciente de seus altos destinos e de seu indeclinável papel histórico aserviço da democracia, da liberdade e da dignidade dos homens.”
Sessentae dois anos depois do alerta de San Carlos, neste mundo hegemonizado portransnacionais da mídia mais interessadas em formar consumistas que cidadãos,nossas universidades ainda não priorizam o cultivo dos valores próprios denossas culturas nem participam ativamente do esforço de resistência esobrevivência de nossa identidade cultural. O que deveria se traduzir noempenho para erradicar a miséria, o analfabetismo, a degradação ambiental, asuperação de preconceitos e discriminações de ordem racial, social e religiosa.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Federal do ABC aposta em pesquisa, e 100% dos professores são doutores — Portal ClippingMP

Federal do ABC aposta em pesquisa, e 100% dos professores são doutores — Portal ClippingMP

Federal do ABC aposta em pesquisa, e 100% dos professores são doutores

Autor(es): Luciano Máximo
Valor Econômico - 10/10/2011
 
Em cinco anos de existência, a Universidade Federal do ABC (UFABC), em Santo André, coleciona uma série de indicadores dificilmente encontrados em uma instituição de ensino superior ainda em processo de estruturação. É a única universidade brasileira com 100% do quadro de 425 professores titulados com doutorado - com mais de 75 anos de história, a Universidade de São Paulo (USP) tem 96% de doutores à frente das aulas e pesquisas. A universidade do ABC adota postura agressiva em relação à pesquisa: em cinco anos abriu 14 programas de pós-graduação, e seus pesquisadores publicaram cerca de mil artigos científicos, com ênfase em estudos sobre nanociências, neurociências e cognição, simulação computacional, novos materiais e energia.
A UFABC também lançou no país o modelo pedagógico dos bacharelados interdisciplinares (BIs), graduação com três anos de formação geral, com uma grade curricular livre, seguida de curso de formação específica, como engenharias, licenciaturas ou ciências da computação. Um desses bacharelados, o de ciência e tecnologia, foi o curso mais procurado em 2011 no sistema unificado de seleção pelo Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), com 16,3 mil inscrições para 1,5 mil vagas, média de 11 candidatos por vaga.
Para o vice-reitor da universidade, o físico Gustavo Martini Dalpian, os bacharelados interdisciplinares são a maior prova de que, dentro da política de expansão do ensino superior federal, "a UFABC está dando certo". "O projeto pedagógico foi desenvolvido cuidadosamente e com o objetivo de inovar. Quatorze universidades federais passaram a utilizar o mesmo modelo de bacharelados interdisciplinares, instituições particulares vêm conversar com a gente para tentar entender e eventualmente implantá-lo. A Escola Politécnica da USP criou um grupo de trabalho, do qual participa o nosso reitor [Helio Waldman], com o objetivo de reformular o currículo das engenharias, e uma alternativa é instituir um programa multidisciplinar semelhante ao BI para um curso inicial. É um indicador claro de que a proposta é boa e promissora", avalia Dalpian.
"O curso é pesado, tem muito cálculo, física e computação. Já cansei de ficar por aqui estudando de manhã, à tarde e à noite", relata Cláudia Januário, formada no bacharelado interdisciplinar de ciência e tecnologia e em licenciatura focada em química. A estudante conclui no fim do ano a especialização em química, que completa o ciclo de formação iniciado no bacharelado, e já está se preparando para emendar um mestrado sobre biologia molecular na própria UFABC.
"Aqui o aluno se torna o gerente da própria carreira, um físico pode saber muito de biologia, um engenheiro pode se especializar em física", acrescenta o professor José Fernando Queiruga Rey, coordenador do bacharelado de ciência e tecnologia. "Montei meu currículo e fiz licenciatura junto com o bacharelado porque pretendo dar aulas na educação básica, mas ultimamente eu só tenho ficado no laboratório", conta Cláudia, que está decidida a seguir carreira acadêmica. "Não dá para entender como não existia uma grande universidade pública por aqui com tanta empresa em volta. Na área química tenho vários amigos estagiando."
Marco Camargo, formado nas primeiras turmas do bacharelado interdisciplinar e atualmente estudando engenharia de instrumentação, automação e robótica, está na quarta etapa de seleção para uma vaga de trainee na Siemens. Ele conta que "sofreu" no início do curso: "As turmas atuais estão mais bem servidas, com aulas de revisão para matemática e cálculo e uma infraestrutura muito melhor."
Como ocorre na maior parte das universidades que estão no processo de expansão, os atrasos nas reformas são sempre lembrados pelos estudantes. Há duas semanas, nas comemorações dos cinco anos da fundação da UFABC, o ministro da Educação, Fernando Haddad, e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva não escaparam de sonoras vaias de um grupo de 50 estudantes, que protestavam contra o atraso nas obras da instituição e por melhorias em algumas políticas universitárias, como assistência estudantil. Ricardo Senese, presidente do Diretório Central de Estudantes (DCE), atenta para o problema envolvendo os cursos de engenharia, considerados carro-chefe da universidade. "Os prédios de salas de aula e laboratórios das engenharias não saíram do chão."
Apenas dois prédios e o restaurante universitário do campus principal, em Santo André, estão prontos. No campus São Bernardo do Campo, onde se concentram os bacharelados interdisciplinares voltados para humanas, as aulas ocorrem em espaço cedido pela prefeitura local. Mesmo assim, as instalações são novíssimas e modernas.
Na sede as salas de aulas têm ar-condicionado e projetores e os laboratórios são amplos, mas é possível notar carteiras usadas pelos alunos ainda embaladas em plástico, equipamentos encaixotados, e os laboratórios de ensino e pesquisa ainda não funcionam em plena capacidade. "O sistema de tubulação de gás, que permite o manuseio de maçaricos, ainda não chegou aqui", conta um monitor de laboratório.
Segundo o vice-reitor, os dois blocos de oito andares abrigam satisfatoriamente os mais de 5,5 mil alunos atualmente matriculados. De fato, o espaço físico de proporções gigantescas indica que a universidade está sendo preparada para acolher mais de 10 mil estudantes nos próximos anos.
"Entregamos 50 mil metros quadrados de instalações, 80% do projeto original. A empreiteira não cumpriu o cronograma do contrato e perdeu o trabalho. No momento estamos fazendo nova licitação para mais 50 mil metros quadrados de obras, que contemplam um ginásio de esportes, um teatro, um torre de caixa d"água, um bloco anexo para laboratórios, salas para professores e estacionamento, além da marquise que vai cobrir toda a área externa", explica Dalpian.

domingo, 9 de outubro de 2011

G1 - País modelo em educação, Finlândia tem 'mestrado' em ensino técnico - notícias em Vestibular e Educação


09/10/2011 07h05 - Atualizado em 09/10/2011 07h05

País modelo em educação, Finlândia tem 'mestrado' em ensino técnico

País é campeão do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa).
80% dos jovens que concluem o ensino médio seguem para ensino técnico.

Vanessa FajardoDo G1, em Londres - A repórter viajou a convite do Senai
Estudante de ensino técnico da Finlândia disputa prova para cabeleireiros no World Skills (Foto: Divulgação/World Skills)Estudante de ensino técnico da Finlândia disputa prova do World Skills 2011 (Foto: Divulgação/World Skills)
No país campeão do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa) por dez anos consecutivos, a Finlândia, 80% dos jovens que concluem o ensino médio optam por um curso de educação profissionalizante, chamada de educação vocacional, e não seguem para a universidade. O curso tem duração de três anos e é oferecido em tempo integral. Os estudantes que querem seguir carreira no ensino técnico podem ainda optar por uma especialização depois de três anos e uma espécie de mestrado após cinco anos da conclusão do ensino técnico. O ensino é público.
Estudante de ensino profissionalizante da Finlândia (Foto: Divulgação/World Skills)Estudante de ensino profissionalizante da Finlândia
(Foto: Divulgação/World Skills)
“O objetivo desta modalidade de ensino é preparar o jovem para a vida profissional. 80% dos jovens que vão para o ensino vocacional já seguem para o mercado de trabalho”, afirma Matti Haapanen, da delegação da Finlândia, um dos 51 países que participam da 41ª edição da World Skills, em Londres, na Inglaterra. O evento reúne cerca de mil estudantes e termina neste domingo (9).
Algumas escolas, principalmente no sul do país, oferecem as duas modalidades de ensino médio (regular e técnico) concomitantemente. Porém, de acordo com Haapanen, ainda é pequena a porcentagem dos estudantes que optam em fazer ambos os cursos de forma conjunta.
Segundo Haapanen, 15% dos egressos do ensino vocacional optam pelas universidades politécnicas que oferecem o que se assemelham a cursos tecnólogos no Brasil, e os 5% restantes ingressam nas universidades tradicionais. Nestas é o possível seguir carreira acadêmica e cursar doutorado. A grande maioria das instituições de ensino superior do país é pública. Para conquistar uma vaga é necessário passar por um exame rigoroso.
Finlândia dá especialização para estudantes de ensino técnico (Foto: Divulgação/World Skills)Finlândia dá especialização para estudantes de
ensino técnico (Foto: Divulgação/World Skills)
Referência
Para Haapanen, é uma surpresa se manter no topo de avaliações como o Pisa, já que eles não trabalham com nenhum tipo de exame que afere a qualidade do ensino. “Raramente nossos moradores vão estudar em outra cidade”, diz.
Na Finlândia, todos os professores da rede pública têm no mínimo mestrado e a carreira é muito valorizada, inclusive pelos jovens. “Os professores têm uma reputação boa, é cultural. Muitos alunos querem ser professores porque veem a carreira como algo estável, apesar de não ter salários muitos altos.” De acordo com o representante finlandês, os docentes têm autonomia para trabalhar, podem criar seu próprio currículo sem controle do Estado, principalmente no ensino fundamental.
Um professor da rede pública da Finlândia ganha, em média, 40 mil euros por ano. Um médico no mesmo país recebe cerca de o dobro do salário.
Brasil no Pisa
O Pisa é um ranking internacional de ensino elaborado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e divulgado a cada três anos. Em 2009, o programa avaliou 470 mil estudantes. Desse total, 20 mil eram brasileiros. O Brasil ficou com a 53ª colocação entre 65 países.
O Pisa avalia conhecimentos de leitura, matemática e ciências dos adolescentes. O Instituto de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), órgão do Ministério da Educação (MEC), é quem aplica a prova no Brasil.